domingo, 18 de abril de 2010

A arte de compartilhar a arte_vida e obra



Volto a falar sobre Árpád Szenes e Viera da Silva.
Na postagem em que comecei a falar sobre eles, havia dado tanto destaque à vida e ao relacionamento dos dois artistas que acabei por não apresentar obras de cada um deles, há só um quadro de Szenes. Eles não eram apenas marido e mulher, eram artistas, pintores, gravadores...

O quarto cinzento, Vieira da Silva, 1950

Aqui se pode ver o que mais me encanta na obra de Vieira da Silva.  A profusão de elementos dispostos no espaço. Outro recurso usado é o de manter a linha como estrutura aparente. E essa atenção que ponho sobre esse fato é inegavelmente porque a linha aparente no desenho adquiriu uma importância para mim mesma, como artista. Não estou insinuando algum tipo de influência da obra da artista em meu desenho, não tenho dúvida de que, no meu caso, a linha aparente surgiu de uma prática em que não me demorei a me dar conta do papel que essa linha foi assumindo no que fazia e, acredito, não de um contato anterior com obras de Helena vistas pessoalmente em uma exposição em São Paulo nos anos 1990 e posteriormente em livro.
Vieira da Silva também fez retratos de Szenes, que fez inúmeros dela.


                                          Retrato do Arpad, 1931, óleo s/tela

A gente se acostuma a ver os quadros de caráter abstrato de Vieira porque são os mais divulgados, mas fazia figurativo também. Gosto particularmente dos retratos, eles têm uma carga emocional imensa, isso é mais do que representar a aparência do retratado, fosse Árpád ou ela mesma.


 Arpad, 1942, guache s/cartão 

Auto-retrato*

Encontrei uma reprodução de um quadro de Vieira de 1944, que foi feito durante o período em que moraram no Brasil, chama-se História trágico-marítima ou O naufrágio, um óleo sobre tela e os traços feitos com mina de chumbo. Aqui aponto novamente a profusão de elementos, entre os quais se veem figuras humanas, caracterizando bem a situação de desespero de um naufrágio.


As cores usadas nessa pintura têm o poder de dar a dimensão da tragédia no mar, o que se passa se concentra ali naquela onda que lambe o barco e atira seus ocupantes nas águas em movimento de redemoinhos. Ele foi pintado em menção ao estado de guerra por que passava a Europa na época. 
Li, no blog de Luisa Lopes, mulheresesjs, que no Brasil Vieira da Silva se voltou à pintura figurativa, deixando um pouco de lado a abstração.
Ao que parece Luisa está correta, basta verificarmos a data deste outro quadro, eles permaneceram aqui de 1940 a 1947.

O desastre ou A guerra, 1942, ost


O que li num texto sobre a mostra Vieira da Silva no Brasil, de 2007, com curadoria de Nelson Aguilar, que também organizou o catálogo de mesmo nome, o que a teria levado a interromper seu caminho pela abstração: "'Aqui no Brasil ela usou o álibi do figurativo, senão ia ficar falando sozinha', diz Nelson Aguilar". A motivação de um artista nem sempre é espontânea, de acordo com seu desejo mais pessoal.
Não consigo me recordar da data exata em que vi um desenho ou gravura dela pessoalmente, mas a galeria é bem provável tenha sido a de Arte do Sesi, em São Paulo. Era algo parecido com este

Abstracção

Árpád Szenes, sua pintura não teve o destaque da de Vieira. Outro dia encontrei um blog em que estava sendo anunciada uma exposição com obras dele na Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva, em Lisboa, e o relato do autor do blog Infinito Pessoal sobre a exposição ser um tributo a ele, um resgaste do valor do artista. O post de 2007 tem como título "Arpad, ou por detrás de uma grande mulher...".
Szenes pintou Vieira da Silva,



mas também desenhou a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner


e a poeta brasileira Cecília Mirelles,


entre outros retratos.
Gosto de uma pequena biografia de Szenes que aparece no site do CAMJAP. Nela finalmente se tem uma apresentação de sua obra mais consistente, além dos dados propriamente biográficos. Desenhista, pintor... professor. Deu aulas no Rio de Janeiro. Quando Vieira da Silva retornou à Europa, Szenes só vijou depois de terminado o curso. 
Fizeram amigos no Brasil, a  retratada Cecília Meirelles, o artista gaúcho Carlos Scliar com quem aparecem nesta foto


Em 1943

Vale a pena ler o que Vieira da Silva escreveu a Scliar sobre a arte dele, é puro reconhecimento e incentivo, algo que considero uma rara oportunidade de ver: um artista encantado com a obra do outro, um outro mais jovem. Li em algum site que era um casal dado a incentivar artistas.

De Árpád Szenes, uma paisagem (?)


Leio em um site que Szenes e Vieira da Silva obtiveram cidadania francesa em 1956 e que ele teria sido reconhecido com exposições também no exterior e mesmo com condecorações do Estado francês. Isso é muito bom, tenho tristeza quando um artista que o mereça não seja reconhecido em vida. Aqui pareço dar uma informação contraditória, Szenes foi reconhecido, mas o fato é que a arte de Vieira da Silva foi muito mais divulgada que a dele, mesmo agora ainda é o que acontece.

De Vieira da Silva, livros e luz


L'issue lumineuse, Vieira da Silva

Ainda Árpád, mais uma vez Maria Helena em retrato


Poderia escrever muito sobre eles mas creio que já me alonguei por demais aqui. 
Eis os artistas Vieira da Silva e Szenes, eis o casal Árpád** e Maria Helena


                          

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* Para variar, as cores das reproduções são infiéis e não consigo dar conta de encontrar a mais próxima. No catálogo Vieira da Silva  no Brasil, de Nelson Aguilar, encontrei foto desse autorretrato em tons de azul. Sabe-se lá qual a verdade! Não tenho intuição para tanto.

** Quanto à grafia do nome do artista, ora vejo com acentos, ora sem. Já vi o sobrenome acentuado também.  Em Portugal não acentuam. Gosto de manter a grafia original do nome da pessoa. Ainda vou saber como se escreve o nome dele. Creio que com acentos.



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